terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Bom Natal :)


Genevieve... genevieve...

Genevieve sentiu um ligeiro arrepio na pele ao entrar no bar. A música alta ecoava na sua cabeça ao mesmo tempo que diferentes cheiros lhe entravam nas narinas. Suor, sexo, alcool e pele queimada de tatuagens feitas recentementes confundiam os seus sentidos. Ela observava os corpos que se mexiam e dançavam ao som da música. Via lentamente o suor humano a escorrer pelos corpos.
Como ela os admirava.
As paredes forradas com panfletos de bandas que actuaram naquele bar e velas já queimadas que deixavam a cera derretida completar o cenario.
Há mais de 680 invernos que ela têm 16 anos. Afastou o pensamento da sua fome e olhou para o grupo de músicos em cima do palco. A mulher na bateria, o guitarrista que não se importava do sangue que lhe saia dos dedos manchando a guitarra e salpicando a cara enquanto tocava.
Ela sorriu e sentiu-se em casa neste ambiente. Os tempos mudam mas o gosto pelo calor, pela paixão e pelo prazer não. Passou a lingua pelos dentes afiados ao olhar de cima a baixo o corpo de uma mulher que dançava suavemente junto a uma das paredes.
Aproximou-se dela e suspirou-lhe no ouvido, e um suspiro foi quanto bastou. A mulher seguiu-a automaticamente. Usava um top que deixava a barriga e os braços nús. umas calças de ganga rasgadas nos sitios certos e Genevieve admitia para si que a exitava só de pensar em arranhar aquelas tatuagens que ela com tanto orgulho mostrava.

A música subiu de volume. O ar abafado a todos cegou e a boca de Genevieve encheu-se de sangue.

Genevieve... genevieve... só matas o que consegues.




Texto por .: Daniel Lopes

texto em formato de vénia ao livro que ando a ler. Genevieve da Black Library.

A todos desejo um fabuloso Natal. Todos nós merecemos mais do que pensamos merecer.

Viva a Revolução!!

Aqui fica um audio para ouvir enquanto odeiam o texto. lol

http://www.youtube.com/watch?v=bQTkOP60bGg

Imagem .: Capa do livro original "Genevieve".

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

OST e mais Noticias

E cá estamos nós.

Com o final do capítulo II ainda há dias e o capítulo III já na cabeça, chego a um ponto onde tenho que acalmar e pensar bem no que quero fazer com esta historia e no que desejo para ela.

Se só a tornar num conto, perdida num blogue que muita pouca gente visita e lê, ou dar asas a ela e a mim.

Mas enquanto me encontro aqui nesta encruzilhada, deixo-vos com uma banda sonora
construída por mim, para aqueles que não sabem o que ouvir enquanto lêem a historia do Cássio.



Em cima 1 - Six Organs of admittance - Shelter from the Ash

2 - Isis - Holy Tears

3- Red Sparowes - We Stood Transfixed in Blank Devotion As Our Leader Spoke to Us, Looking Down on Our Mute Faces With a Great, Raging, and Unseeing Eye

4- Neurosis - The Tide

5- Battle of Mice - The Lamb and The Labrador

6- Nine Inch Nails - Everyday is Exactly The Same

7- Danny Elfman - Little Things

8- Isis - In Fiction

9- Red Sparowes - A Brief Moment of Clarity Broke Through the Deafening Hum, But it Was Too Late

10 - Dead Can Dance - Indus


Todos estas músicas podem ser vistas e ouvidas no nosso belo amigo youtube :)

É com agrado que também transmito esta notícia.

Estou a trabalhar numa animação para um festival de Lisboa, o Indie Lisboa. Aqui vos deixo uma imagem da animação. Espero que gostem.



Agradeço desde já aos incríveis Fatagagas, por já se encontrarem a trabalhar na banda sonora para este meu pequeno (mas trabalhoso) projecto.



Até uma próxima.

Daniel Lopes

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Final do Capitulo II

Fico no quarto ainda por momentos, sentado a pensar e a sentir o cheiro do incenso. Penso no passado da humanidade repleta de guerras, traições, dores e mortes. Assim se formaram novos impérios, novas civilizações e assim também elas caíram.

Religiões, magia, milagres, espíritos, monstros e preces. Este mundo agora místico ou sobrenatural em que tentamos viver parece estar cada vez mais próximo de nós. E há muito que eles nos disseram que já não somos bem vindos neste novo mundo.
O meu estado de sonho apenas me trouxe mais questões.
Mais dúvidas.
Uma parte de mim quer saber respostas do porquê desta tentativa de extinção da humanidade e de onde vêm os seres. Outra quer levar o resto dos sobreviventes a um porto seguro, se é que ele existe, mas, outra parte dentro de mim apenas quer deixar este mundo. Morrer e ter o meu descanso.
Tento levantar-me visto que aquela falsa Virgínia já não se encontra aqui. Já não sinto um peso sobre mim a forçar-me a estar sentado. Será que com quem estive a falar era o mesmo ser, o espectro que me pôs a mão no ombro e me sussurrou ao ouvido momentos antes de eu apanhar o tiro no peito. Será ela imaginação minha ou mesmo verdadeira. Já não sei distinguir nada nos tempos em que vivo.

Levanto-me.

Saio do quarto e caminho pelos corredores do refúgio.
Vejo as pessoas a rir, a festejar e a dançar como se nada tivesse acontecido. As suas roupas são diferentes. Estão limpas e repletas de imensos detalhes cravados em várias cores. Os cabelos das mulheres estão vivos, sem terra ou pó neles, tal como os seus olhos e as suas peles. Andam de mão dada e trocam carinhos com os seus amados.
As paredes e os corredores estão repletas de velas e incenso. Um vento morno viaja pelos corredores ao mesmo tempo que passam por mim duas crianças que brincam e gritam atrás de uma bola colorida. Ainda penso em dizer para elas fazerem menos barulho, pois é perigoso, que o barulho alto pode comprometer a nossa posição, o nosso esconderijo, mas rio-me logo de seguida com a minha estupidez.
Isto não passa de um sonho!
Nem uma visão acredito que seja, e isto não é o meu lado pessimista a falar. Apenas sei que estou a morrer, a perder sangue. Estou aqui, mas ainda sinto a bala alojada dentro de mim. Toco no peito e sei que eles ainda não a tiraram e que provavelmente nem a vão conseguir tirar.
Todas as pessoas por quem eu passo enquanto passeio pelos corredores cumprimentam-me e acenam-me, sempre bem dispostas e calorosas, como se nada tivesse acontecido. Sabe bem este momento, mas por outro lado também me assusta.
Passo pela área do lago, onde mulheres se banham nas águas frias com os seus peitos nus, ao mesmo tempo que lavam a roupa e limpam os alimentos. Falam umas com as outras do tempo lá fora. De homens e amores que não deram em nada. Do tecto, um cesto enorme desce por cordas cheio de alimentos frescos. Dois homens acenam-me da fenda da cave, agora limpa de raízes, enquanto seguram nas cordas do cesto. Dentro do cesto um gato pequeno e gordo lambe o pelo e cheira a comida. Uma das mulheres ao ver o gato pega nele e leva-o ate terra seca. O gato abana o rabo enquanto mia, fugindo logo de seguida.
Já não via um animal desde o dia dos ataques.

Volto aos corredores e reparo que as palavras de Virgínia já não existem pintadas nas paredes. Este sonho está a ser demasiado perfeito.
Imagino-os a tentar reanimar-me e a fazer de tudo para tirar a bala dentro do meu peito. Não quero que eles sofram com a minha morte, mas também não quero voltar. Não quero mais dor, mais guerras ou mais sangue.
Caminho em direcção ao meu quarto e por entre a cortina que serve de porta vejo duas silhuetas. Uma mulher e uma criança. Afasto a cortina e fico a olhar enquanto alegria me enche a alma.

São elas.

A minha bela mulher com os seus lábios perfeitos e a minha perfeita filha com os seus belos olhos, que brincam uma com a outra a tentar escolher brincos dentro de uma caixa velha de madeira. Os brincos brilham tal como os seus risos. Elas vestem o mesmo tipo de vestidos que as mulheres daqui. Perfeitos, coloridos, compridos e simples.
Sinto uma dor no peito que me faz tossir.
A minha esposa olha para mim e levanta a mão para eu me aproximar.
Chama por mim.
Eu caminho, mas a dor no meu peito aperta. Não quero parar. Dou um passo e tento agarrar a sua mão. A minha filha senta-se na cama e diz o meu nome. Para eu me deitar na cama e ajudar a mãe a escolher uns brincos bonitos para a festa de logo à noite.
Não sei que festa é, mas quero ficar para descobrir. Não as quero deixar...
Perco as forças nas pernas e caio de joelhos. Tento-me arrastar.
Tudo roda.
O meu peito aperta ao ponto de explodir. Grito com a dor.
Eles encontraram a bala.


Volto à realidade a gritar.

Olho e vejo Jorge com dois pedaços de ferro dentro da minha ferida a tentar retirar a bala enquanto murmura para eu me aguentar. Sofia e Miguel juntamente com os dois guardas que ajudaram a carregar-me, seguram-me no corpo. Eu abano-me e grito com a dor. Sinto as lágrimas de Sofia a caírem-me nos olhos, que passam a ser minhas.
Os ferros ardem dentro de mim e eu olho para Jorge. Olho e rogo para que ele me deixe ir. Para que ele me deixe ir ter com a minha mulher e filha, mas, ele cerra os olhos e puxa os dois ferros e de dentro de mim eu vejo um pequeno pedaço de ferro dobrado a sair.
O aperto no peito desaparece para dar lugar a uma nova dor e a minha garganta se encher com sangue. Todos pegam no meu corpo e inclinam-me para eu não me sufocar com ele. Eu tusso e cuspo, enquanto Jorge tapa a ferida e faz pressão nela.
Deitam-me novamente e fico a olhar para as cabeças à minha volta, que chamam pelo meu nome, que dizem para eu não desistir ou adormecer.
Vejo Virgínia no meio delas e, como se seria de esperar, ela sorri. Peço para ela me levar de volta. Para ela me levar deste mundo, mas ela apenas faz sinal com o dedo nos lábios para eu não fazer barulho.
Olho para Jorge e ele molha um pano em água fresca para limpar a ferida e por novos panos limpos sobre ela. Com as minhas últimas forças agarro o seu braço e fito-o. Por detrás dele vejo novamente aqueles pós brilhantes a flutuar, que vão formando símbolos e círculos onde do meio deles Teresa aparece tal como desapareceu. Com as suas asas negras e o corpo envolvido num pano branco que flutua à volta dela sem lhe tocar, servindo apenas para esconder as suas partes íntimas ela voa na minha direcção. Levanta o braço e com a mão segura uma espada em chamas apontando-a na minha direcção.


“Morre e vive novamente, mortal!” - Grita como se gritasse com todas as vozes do universo.


Sinto a espada a cravar-me na carne e tudo arde. Os meus olhos. A minha boca e as minhas mãos. Olho para a ferida e caio para trás. Viver novamente?! Não quero...
Só quero estar com elas... Viver onde elas estiverem. Procuro pelo anjo com o corpo de Teresa.


“Não te atrevas a trazer-me de volta... Não te atrevas!” - penso eu na sua direcção.


Cerro os punhos e tiro prazer no meu último suspiro.
Sofia bate freneticamente no meu peito e chama por mim, mas sem resposta.
Sinto-me a ir...
Jorge aproxima a sua mão fechando-me os olhos.
Tudo fica escuro.
Morro.






"Nunca mais voltar
È o que torna a vida tão doce."

Emily Dickinson
Poema número 1741






Texto por.: Daniel Lopes

Imagem por.: Hoon



Vemo-nos no capitulo III ;)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Capitulo II - Pag I e II



De que surgirão heresias novas, temos a profecia de Cristo; mas de que antigas serão destruídas, não temos nenhuma predição.


Thomas BrowneReligio Medici, I, 8 (1642)



Olhai e recordai. Olhai para este céu;

Olhai profunda, profundamente para o limpo ar marinho,

O ilimitado, o término da prece.

Falai agora e falai para a sagrada abóbada.

Que ouvis? Que responde o céu?

Os céus estão ocupados; esta não é a vossa casa.


Karl Jay Shapiro - Travelogue for Exiles.




Capitulo II

Feridas na Babilónia.


Custa-me respirar.

Vejo o chão e sinto a terra a entrar-me pelas narinas. O cheiro a terra, o sabor dela na minha boca, na minha língua que me torna a boca seca. Com esforço foco o meu olhar já enublado em Sofia e no Jorge que chamam pelo meu nome. Parecem estar a gritar, mas não consigo perceber.

Tento fechar os olhos. Só quero adormecer. Só quero partir e deixar esta merda de mundo para trás, mas, eles não me deixam. Chamam por mim e levantam-me o que me faz olhar para o meu próprio sangue.

Jorge e dois guardas que conseguiram sobreviver pegam em mim. Jorge nas pernas e os guardas no meu tronco e braços. Gemo com a dor, mas deixo-me ir. Com a cabeça caída para trás vejo aos solavancos Sofia com as mãos agarradas ao seu caderno e o desespero agarrado na sua face.

Ela diz-me que tudo vai correr bem e a minha cabeça cai e os meus olhos reviram.

Não consigo ver onde está Miguel.

O meu sangue vai marcando o caminho com as suas gotas. Passamos por cima do corpo de Virgínia e até ela fica marcada. A minha faca espetada no seu peito.

Reparo na sua face. Ela sorri e os seus olhos continuam totalmente abertos. Aquele olho vermelho fita-me e eu desmaio por momentos.


Vejo a minha mulher e a minha filha a acariciar-me a cara. O cabelo e a barba. Dizem que me amam e eu não consigo responder. Elas abraçam-me e eu sinto-as quentes como uma tarde de Verão no meu corpo. Quero ir ter com elas. Quero flutuar e voar como elas, voam ao meu lado. Tão belas. Tão perfeitas.

Como eu sinto a vossa falta.


Acordo.

Um dos guardas olha para mim e pega melhor no meu tronco. Estamos já a entrar na casa. Ouço o arrastar da mesa e descemos em direcção aos túneis. Tusso e sangue invade-me a garganta. Jorge grita e inclina-me. Cuspo o sangue para o chão.

Ouço-o a rogar-me ao ouvido para eu me aguentar. Para não desistir, mas, desistir é que eu desejo meu bom amigo.

Desmaio novamente.


Vejo Virgínia no seu quarto com as suas vestes. O quarto repleto de velas e incenso pousados nas prateleiras de madeira montadas nas paredes de pedra. Ela sorri para mim e diz-me para eu entrar e sentar-me. Já não tem a mutação na cara e parece-me mais nova. Sento-me em cima de uma almofada no chão e ela oferece-me uma chávena de chá. Aceito sem saber porquê. Ao olhar para o meu reflexo na água do chá reparo que não tenho a pala e o meu olho está bom.

Infelizmente isto não passa de um sonho.


“Será mesmo apenas um sonho isto Cássio?” - Pergunta-me Virgínia como se estivesse a ler o meu pensamento enquanto acende mais uma vela.


“Nem comigo a morrer me deixas em paz velha?!” - Respondo eu a sorrir e a passar a mão pela minha face a sentir o meu olho bom. Não sinto raiva nem vontade de a esganar. Isto não passa de um sonho, por isso mais vale aproveitar enquanto consigo. - “Sabes Virgínia, preferia estar a sonhar com a minha filha e a minha mulher do que contigo.”


“Sim, compreendo. Mas, os sonhos, a morte e a vida nunca o são como queremos e desejamos. Por isso, acho que ainda vais ter que passar mais uns momentos aqui comigo.” - Ela pega num livro e folheia-o. Vai murmurando palavras e olhando para mim.


Dou um gole no chá e ele sabe mesmo a verdadeiro. O incenso cheira mesmo a incenso e a almofada pôs-me mesmo confortável. O quarto está quente. Olho para ela, e parece que já não consigo ver nenhuma ruga na sua pele. Dos seus lábios começa a sair um cântico e vindo do nada sons de instrumentos aparecem. Violinos e pianos que se misturam com a sua voz.

Sinto-me a cair.

Estou a morrer...


“Estás a morrer Cássio, mas isso não quer dizer que o teu tempo já acabou.” - Diz-me ela enquanto a música não pára. Como se tivesse sido sempre outra pessoa a cantar neste tempo todo. - “Não sabia mas já o tens dentro de ti...”


“Tenho o quê dentro de mim?” - Pergunto pousando a chávena de chá. Olho para as minhas mãos e noto que delas saem pequenos pedaços de pó brilhantes que fluem e viajam sem motivo aparente. Sigo-os e eles iluminam o quarto criando símbolos em forma de círculos no ar. O símbolo da vida eterna.


Ela pensa na minha pergunta e parece meditar sobre ela - “Isso não te posso responder. Como deves compreender eles não me deixam...” - Fixando os olhos em mim e sorrindo. Tão inocente o seu sorriso que me faz acreditar nele.


“Eles quem Virgínia?” - Ela vira a cara com a minha pergunta e volta a pousar o livro. A música vai-se afastando. Passa as mãos pelas pernas e levanta-se.

“Pára de me chamar Virgínia. Não gosto do nome, e ela já cá não está Cássio.” - Caminhando em direcção á saída do quarto. Ela afasta uma das cortinas que serve de porta ao quarto e eu tento levantar-me para a seguir, mas não consigo. Fico a olhar para ela enquanto ela sai arrastando pelo chão as suas vestes brancas.


“Quem és tu?” - Pergunto mesmo antes de ela sair.


“Não te quero assustar Cássio.” - Responde-me ela parando e olhando fixamente para mim.



Desenho por.: Daniel Lopes tirado do Caderno de Sofia representando Cássio ferido.

Texto por.: Daniel Lopes.