quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Capitulo I, pág. III e IV


Tudo fica parado. Quieto.
Os trabalhadores olham à procura de onde tinha vindo o grito de dor.
Sinto um apertar no peito e, de repente, outro grito seguido de barulhos e mais gritos. Corro pelo meio da área dos trabalhadores e desço por um corredor circular feito de degráus de pedra que vai dar à secção do andar de baixo.
Um casal vestido em trapos apontam-me por onde seguir.
Não consigo decifrar as vozes, nem o quero. Só quero chegar à origem do grito o mais rápido possivel.
Este barulho vai atraí-los até nós!

Vejo um aglomerado de pessoas junto de duas mulheres e um homem na zona dos aposentos. Mal me aproximo, as pessoas afastam-se. Reparo no homem de barbas brancas e feições fortes a segurar na mão de uma miúda, que nao deve ter mais do que quinze anos. Ela está de pernas abertas e morde um pedaço de madeira, ao mesmo tempo que da sua boca conseguem fugir gritos. A dor deve ser demasiada para que a consiga suportar, por isso tento não pensar que esta desordem toda pode eventualmente atrai-los.
Eles que venham!
A outra mulher, idosa, com uma cicatriz ainda recente na face segura-lhe nas pernas e tenta-lhe transmitir reconforto e força através de palavras calmas e sinceras. Olho para ela e ela para mim e, nos seus olhos vejo o medo e a ansiedade. Ajoelho-me ao pé da criança e passo a minha mão suavemente pela sua testa. Tem a pele suada e amarela.
Vai morrer.

Como te chamas querida? - Pergunto eu afagando os seus cabelos.
Te... Teresa, senhor... - Responde ela com os olhos muito abertos e soluços na voz enquanto as suas mãos agrarravam com mais força a manta grossa debaixo do seu corpo.
O homem começa a chorar no momento que os olhos dela vão revirando e o sangue não pára de jorrar do seu sexo. Este é já o quinto aborto que acontece só neste mês, mas felizmente as outras mulheres tiveram mais sorte, conseguindo manter-se vivas. Desde que cá estamos ainda não houve um único parto em que a criança tivesse sobrevivido.
A velha deixa de lhe segurar nas pernas ao mesmo tempo que Teresa lança um grito agudo, seguido por um último suspiro.
Ela morre.
Todas as pessoas baixam a cabeça. O homem chora no seu peito. A idosa levanta-se e afasta-se indo lavar as mãos numa bacia com água, ali ao pé. Pouso a mão no ombro do homem.

Era sua filha? - Pergunto.
Era sim...a minha bébé. O meu amor! - Palavras que lhe saem por entre lágrimas.
O pai da criança onde está? Eu aviso-o da perda. - Não sabendo mais o que dizer ou fazer.
Sou eu... - Responde o homem. - Sou eu. Era eu o pai da criança... - Levantando a cabeça e olhando nos meus olhos com a cara encharcada de lágrimas. - Eu amava-a...

Olho directamente para ele. Sussurros e frases de reprovação começam a subir de tom nas vozes dos sobreviventes que nos rodeiam. Vejo a imagem da minha filha. Vejo a sua morte.
Sem pensar agarro o homem pelos cabelos e esmurro-o violentamente na boca com o punho cerrado. Sinto os dentes dele a ficarem cravados nos nós dos meus dedos. Não digo mais nada. Não consigo. Afasto-me enquanto o ouço gritar e chorar o quanto a amava e ainda a ama. As minhas mãos não conseguem parar de tremer. A multidão abre caminho para eu passar e vejo a velha parada encostada á parede. Não temos médicos, nem quem o tivesse sido antes dos ataques, o que faz com que nós tenhamos que nos contentar com estas beatas. Medicamentos não existem e um assalto ao que resta do antigo hospital está fora de questão. Da última vez que um grupo tentou entrar lá foi completamente chacinado. Desde esse dia fomos observando o edifício e aprendendo que os seres têm inteligência suficiente ao ponto de não sairem de lá, de dia ou de noite, porque sentem que estamos vivos. Mesmo não sabendo a nossa localização, vão-nos retirando os bens de primeira necessidade, para nos irem matando aos poucos.
Observo a velha ainda a esfregar as mãos a tentar tirar o sangue que já lá não existe.

Arranja o corpo por favor. Amanhã faremos o funeral. - Digo eu á beata.
Claro que trato dela...ela era minha filha.


Continua...



Texto por.: Daniel Lopes

Agradecimentos aos meus amigos que têm vindo aqui comentar, ou apenas a dar-se ao trabalho de ler, mas, em especial um grande beijinho e um obrigado à Sofia por me corrigir os erros e apoiar-me como se não houvesse amanhã.

Que isto seja um degrau que dê a uma escada para o nobel da literatura. : P

E em "Soundtrack" recomenda-se vivamente Red Sparowes para quem ler estas palavras.

: )

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Capitulo I, pag II e III

Lá fora tudo se encontra desfeito, queimado e destruído. Os corpos que haviam espalhados pelas ruas há muito que desapareceram. Comidos e arrastados por eles.
As casas, o Palácio da Pena, a beleza da terra e tudo que outrora foi Sintra transformou-se em cinzas e pó em segundos.
Por mais sol que esteja durante o dia, agora, o que eu vejo não é mais do que um cenário cinzento e escuro.

A noite aproxima-se.

Deixo para trás a janela e o inferno que a paisagem me dá e caminho até ao andar de baixo. Afasto uma mesa no meio dos destroços e levanto o alçapão. Este pedaço de metal é tudo o que nos separa deles.
Entro até meio do corpo, para conseguir pôr a mesa de volta no mesmo sitio. Desço as escadas de pedra e entro na cave da casa. Esta parte não foi sequer tocada pelos seres. Foi aqui que nos mantivemos durante quase um ano. Nessa mesma altura, começámos a construir o asilo, enquanto iam chegando mais sobreviventes. Lutávamos contra os seres que captavam o nosso cheiro ou apenas o barulho. Já não tenho conta de quantos matámos, nem de quantos perdemos, mas, sei que começámos a recear tudo à nossa volta. Até uma pedra se podia tornar num ser em forma de criança com asas negras e foices na mão.
Não era a primeira vez que tal acontecia, e com isso, muitos perderam a vida.

Com o punho da faca que tenho no meu cinto dou duas pancadas na porta de metal embutida na parede que dá para o asilo e automaticamente ouço do outro lado sussuros de vozes seguido por um carregar das armas.
Os guardas são novos. Só chegaram há cerca de duas semanas. Depois do que eles devem ter vivido e visto lá fora, nao me supreende minimamente o nervosismo que eles emanam.
Antes que as coisas evoluam digo o meu nome.

Silêncio.

A porta abre-se.
Entro sem cumprimentar os guardas. Eles também não o fazem. Creio que nos habituámos facilmente ao silêncio, talvez mais pelo medo de os atrair até nós. Afinal de contas, muitos de nós começaram novas familias aqui dentro, e, com familias vem o dever de as proteger acima de tudo. Melhor do que eu protegi a minha.
O asilo começa por um corredor estreito todo revestido em cimento, onde lâmpadas penduradas no tecto dão uma luz fraca mas suficiente. Nas paredes, frases e textos escritos a vermelho anunciam o fim do mundo. Aquele, que acredito já ter chegado.

Depois dos ataques ninguém aqui falava em religião, Deus ou salvação, porque uma coisa era certa, todos nós sentiamos isto como o julgamento final.
Deus fechou os olhos e adormeceu no seu trono, deixando-nos à mercê da morte, e a morte jubilou sobre o nosso sangue. Agora dança, matando e apanhando quem ainda luta pela sua existência. Isto é, se existe mais alguém para além de nós.
Agora, depois da chegada de Virginia, tudo mudou.
Virginia é uma mulher de cabelos negros, magra, cujos ataques a tornaram cega. Uma luz brilhante cuspida da terra assaltou-a, disse ela. Conseguiu chegar cá trazida por dois batedores do nosso grupo que a encontraram estendida, nua e ferida, no meio do Convento dos Capuchos.
Desde que chegou, começou a sofrer de pesadelos onde acordava a gritar. Depois dos pesadelos começaram os murmúrios e as escritas na parede.
Visões, grita ela.
As pessoas começaram a ouvi-la e o fanatismo começou a instalar-se. Primeiro criaram um altar, depois vieram as missas cada vez mais frequentes, até que se começou a instalar o boato de que um simples toque da mão dela, pode criar ou curar doenças.
Ela agora vive num quarto privado na última secção da cave, envolta em panos e velas. Todos os dias recebe cada vez mais crentes e mais oferendas.
O poder dela sobe, e o meu e o do conselho diminui.

O corredor vai dar à primeira área aberta do asilo. É aqui que instalámos a primeira barreira da nossa defesa, onde trabalhamos e fazemos armas ou apenas utensílios para o dia a dia. O calor aqui com as fornalhas é inacreditavel, mas admito que a proporção que este asilo tomou em apenas oito anos é de admirar.
Perco-me a olhar para todos estes homens que trabalham sem parar como se a próxima faca ou tacho que criam, fosse a resposta à salvação que procuram.

Ouve-se um grito.



Texto por.: Daniel Lopes

Continuaçao do Primeiro Cápitulo, apresentando as páginas 2 e 3.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Cap I, pagina I

Capitulo I
(página um)

Olho pela janela e relembro o dia em que o ser meio cão, meio bode, entrou de rompante pelo nosso esconderijo matando seis dos oito que éramos. De como ele corria sobre as paredes e tectos da casa. A facilidade que tinha em atirar ao chão e arrancar os membros das suas vitimas.
A sorte que tivemos dos gritos daqueles que morriam não atrairem mais deles. De como um rapaz esguio, na altura de nome Jorge, pegou num ferro caído no chão e o espetou no meio dos olhos do "cão". A primeira vez que vi o sangue deles a jorrar dos seus corpos.
Todas estas memorias me assaltam em ondas, desde esse dia.
Já se passaram oito anos.
Neste tempo, do nosso lado, fomos encontrando mais sobreviventes, criámos um asilo subterrâneo e a melhor defesa que soubemos. Armas de fogo são poucas, por isso machados, facas, espadas e tudo que faça eles sofrerem é o melhor que temos.
Mas o mais importante, aprendemos a observá-los, a evitar e a lutar contra eles.

O meu nome é Cássio Aquiles Lopes e este é o ano 2016.

Tenho informações de que os seres conquistaram e mataram toda vida na Europa e Ásia. Os Estados Unidos foram atacados mas conseguiram defender-se durante dois anos, até que foram atacados por Cuba. A não prever este ataque, os Estados Unidos caíram e Cuba tornou-se na nova potência mundial. Mas, nos dias em que correm, creio que isso não significa muito.
Em 2009 Cuba lançou três bombas núcleares contra os seres na América do Norte, mas não adiantou nada. Morreram centenas ou mesmo milhares deles, mas os mesmos apareceram num espaço de dias.
Ainda nao sabemos donde eles vêm, nem o porquê.
A última noticia que ouvimos na rádio foi há três anos atrás. Desde aí alguns de nós acreditam ser os únicos sobreviventes da raça humana.

Introdução


Lisboa esta em chamas.

Eles vieram durante o nascer da noite. Seres que nunca antes tinha visto em filmes, lido em livros ou sonhado nos meus piores pesadelos.
Sairam das árvores. Do mar. Do chão. Bocas enormes em chamas puxadas por crianças em cinzas e olhos vermelhos que se riem enquanto matam, pilham e tudo queimam. Dos céus surgiram luzes verdes rodeadas por seres voadores envoltos por gritos de choro, queimando, em segundos, casas, prédios e tudo que estivesse pelo caminho. Entre corpos e cinzas consegui fugir de carro até Sintra e para trás deixei em lágrimas amigos, familia e a minha filha que perdi para este dias de jugalmento final. Fechei na minha mente as suas mortes que assisti para tentar viver para mais um dia.

Sintra, eventualmente foi atacada com a mesma violencia que Lisboa. Não sei como sobrevivemos, mas, o que importa é que agora nesta casa meia desfeita tudo observamos sem saber que próximo passo dar. Somos oito, um rádio e vários enlatados. Não falamos uns com os outros e nao sussurramos com medo que eles se sintam atraídos pelas nossas vozes. Apenas nos damos ao luxo de passear com o olhar uns pelos outros. O rádio, só o ligamos no minimo durante o dia que é quando eles parecem estar mais distantes, ou apenas mais escondidos. Lisboa foi só o inicio pelo que consegui ouvir no radio. Já conseguiram avançar até a fronteira de Espanha e França. Nenhum pais estrangeiro nos ajuda, porque estão demasiados preocupados com as suas defesas, e os Estados Unidos, Brazil e México apenas não ajudam com medo que eles fiquem a saber o caminho pelo mar até ao seu continente. O que eles não sabem é que eles apareceram de todos os lados e não irá ser um Oceano que os irá parar.

Creio que mesmo em tempos finais a arrogância é demasiado bela para ser posta de lado.

Este é do décimo terceiro dia desde o "ataque" e a meio da noite observo pela janela um ser com corpo de bode e cabeça de lobo cheirando e aproximando-se do nosso esconderijo. Da sua boca caem correntes que arrastam caveiras meias raxadas.

Cheira, arranha, até que pára a olhar para a casa. As correntes da sua boca tremem.

É agora... O inicio dos meus últimos dias.




Continua.





Escrito por.: Daniel Lopes

Apenas uma ideia que me apareceu na cabeça, provavelmente devido a todas as imagens que me teem chovido na mente nestes ultimos dias.


No proximo texto. Cuba como nova potencia mundial, e sangue. lol ^^
P.s.: Aceitam-se propostas de titulos por favor. : P


Imagem por.: Gustave Doré de 1865