sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Fim do Cápitulo I


Saio da campa e olho atentamente, de cima a baixo, para Virgínia. Já suspeitava que ela aparecesse mas desejava para que não. Ao lado dela surgem agora quatro homens, seus seguidores e da sua “palavra”. Os homens carregam facas, menos um que carrega uma pistola, que por “sorte” a aponta na minha direcção.


“Que queres Virgínia? Estamos a enterrar uma criança. Até isto, tu, vens perturbar?” - tento eu dizer num tom de voz autoritário mas baixo para não criar ainda mais barulho.

“Eu sei bem que é um enterro. Ela também era minha filha. Mas hoje, Cássio, hoje é o dia em que morrerás!”


Ao ouvir estas palavras, os guardas apontam todos as armas a Virgínia, mas, nem ela nem os seus homens mostram qualquer sinal de receio, como se tivessem vindo numa missão suicida. Algo dentro de mim me diz que isto não está bem. Algo não bate certo.


“Estás velha e senil, mulher!” - Diz-lhe Jorge, não perdendo da mira da sua pistola a nuca dela. “Volta de onde vieste e dá-te por contente por ainda te deixarmos viver entre nós.”


Ao ouvir isto ela começa a rir num som estridente.


“Cala-te Virgínia! Com o barulho todo que estás a fazer ainda os vais atrair” - Grita-lhe entre sussurros Sofia.


Ela olha para Sofia, e faz sinal para que os seus homens fiquem à vontade, mas eles ignoram a ordem e não saem do lugar nem perdem o movimento, como se sustivessem o respirar à espera de atacar. Parecem hienas apenas desejando pelo momento certo, ou por um tremer de gatilho para nos saltarem em cima.


“Minha querida...” - diz Virgínia dirigindo-se a Sofia com um sorriso. “eles já cá estão. Eu sou eles!” - com um movimento de braço, ela levanta o véu do lado esquerdo mostrando uma mutação na sua face, com a vista vermelha, onde o preto pinta o resto do olho.


Não sabemos o que fazer ou como reagir. Do seu olho, saem veias azuis e vermelhas que se interligam por manchas verdes até chegarem ao seu sorriso, deixando as outras descer até ao pescoço. Os guardas com o medo começam a tremer. Miguel dá um passo na direcção dela como se quisesse observar melhor a mutação, mas rapidamente perde essa vontade pois ela levanta a mão como forma de fazer parar a sua curiosidade.


“Como vês Cássio, eu já sou um deles. Fui-me transformando desde o dia em que cheguei ao teu belo refúgio, quase morta pelas feridas. Oh... como tu tens orgulho no teu pequeno mundo! Este olho deu-me poderes, com ele consigo ver o passado e o futuro sempre que desejo e de quem desejo, mas, acima de tudo faz-me viver no meio deles. Posso sair ao meio da noite e não ser atacada. Eles cheiram-me. Rodeiam-me mas não me fazem mal. Apenas me amam...”


Não aguento mais. Esta velha pensa que uma doença qualquer que a está a atacar é uma marca deles. Uma oferenda. Isto tem que acabar e acaba hoje! Ela é um mal para o refúgio desde o primeiro dia.


“Então vai viver no meio deles Virgínia e deixa-nos em paz! Estás senil e não fazes ideia do quanto as tuas acções estão a prejudicar-nos. Isto tem que acabar mulher!” - digo entre os meus dentes semicerrados de raiva.


Ela olha para mim e a sua cabeça inclina ligeiramente para a esquerda, não perdendo o seu olhar em mim - “Eu consigo ver quem tu és Cássio. O que aconteceu com a tua família. Como ela morreu. Mas, acima de tudo, eu consigo ver no que te vais tornar. A era do Homem acabou, e nada podes fazer contra isso...”


“De que falas velha? Achas mesmo que alguém acredita em ti, nas tuas mentiras e que consegues viver e caminhar no meio dos seres?!” – Com a raiva a apoderar-se de mim estou a perder esta discussão, ao mesmo tempo que imagens da minha família me assaltam a mente. Raios...será que ela consegue ver mesmo...o que aconteceu com eles...


“Eles acreditam...” - apontando para os homens ao seu lado. - “e tu também irás acreditar! Hoje é o dia!”


Sinto o vento frio a passar no meu corpo.

Vento sem cheiro a cinzas?!

Ouço um barulho seguido de um grito, e ao olhar para trás de mim vejo o corpo morto de Teresa a mexer-se. Primeiro as mãos, seguido dos braços e a cabeça, que se levantam. Os seus olhos abrem-se, e sua mãe cai no chão de joelhos. Tudo fica silencioso e em câmara lenta, como se de um filme se tratasse. Sofia grita, deixando cair o seu caderno de desenhos no chão. Jorge é o primeiro a disparar a arma em direcção ao corpo da criança que agora já se põe de pé em cima da mesa, mas, a bala não faz nada. Passa por ela como se de um fantasma, de um espectro se tratasse. Olho para Virgína apenas para a encontrar a sorrir para mim. Aquele sorriso. Aquele sorriso maldito!

Não aguento mais.

Pego na faca que tenho no cinto e tiro-a. Todos os segundos que passam parecem uma eternidade. Vejo tudo à minha volta. Dois dos homens de Virgínia já se encontram em cima dos guardas com as lâminas espetadas nos pescoços deles, enquanto os outros não sabem o que fazer, ou com demasiado medo para fazer algo. Miguel não consegue parar de olhar para o que era Teresa, que agora se levanta na mesa, abrindo os braços e levantando a cabeça para o céu. Enquanto fecha lentamente os seus olhos mortos o manto vai caindo, mostrando o seu corpo morto, nu e branco.

Com um rápido balancear da mão viro a faca no ar, agarrando-a pela lâmina. Cerro os olhos e não perco a minha atenção em Virgínia.

Ela vê-me mas não se mexe.

Sente-me mas nada faz.

Atiro a faca na sua direcção e ela voa brilhando com os finos raios de luz que conseguem ultrapassar as nuvens e as árvores da floresta, reluzindo na lâmina.

Virgínia não perde o seu sorriso irritante e maldoso.

Jorge continua a disparar para Teresa, mas sem sucesso. O corpo da criança levanta-se da mesa como se estivesse suspensa, como se algo a estivesse a puxar para cima, apesar do esforço que a mãe faz para a trazer para baixo, entre gritos, lágrimas e puxões.

A sua cabeça descai com os olhos fechados para a sua mãe, quando de repente se abrem, apenas para mostrar uns olhos azuis e vazios que já não lhe pertencem.

A mãe larga-a repentinamente com o susto e por não saber que ser é aquele que agora habita no corpo da sua filha. Tudo isto enquanto a minha faca ruma na direcção de Virgínia. Jorge continua a disparar até ficar sem balas. Deita a arma fora e corre em direcção a um dos guardas, ajudando-o a matar um dos homens com uma paulada na cabeça. Até sangue demora a sair, nestes segundos que parecem horas. Sofia apenas olha. Miguel viaja com Teresa enquanto ela olha para a sua mãe, e a sua mãe olha para o que foi outrora sua filha.

Virgínia dá um passo em frente e espera pela faca. Teresa dobra as costas na direcção da sua mãe. O olho vermelho e preto de Virgínia fita-me. Teresa toca na testa da mãe e das suas costas saem penas pretas. A velha dá outro passo e a ponta da lâmina toca nas suas vestes. Se os deuses olhassem agora para nós veriam-nos no meio disto tudo, onde só árvores, terra, pedra, sangue e suor nos rodeia. Asas negras explodem das costas de Teresa entre sangue e pedaços de pele sem nunca perder o toque na sua mãe. Enquanto a faca trespassa o corpo da velha, uma segunda Virgínia aparece do meu lado, como se de uma quiméra se tratasse.

As asas da criança esvoaçam no ar. A mão da segunda Virgínia pousa no meu ombro. O seu olhar é sincero e puro, como se se tratasse de outro ser totalmente diferente.

O cabelo da mãe de Teresa vai-se tornando branco cal com o toque da filha e as suas asas largam penas negras que se evaporam no ar.

A velha suspira no meu ouvido - “Sente o verdadeiro significado da palavra desespero Cássio e alegra-te nela, pois esta Era é nossa. Este é o ciclo da vida.” - A faca entra totalmente no corpo de Virgínia fazendo-o voar para trás, ao mesmo tempo que também cai seca e morta a mãe de Teresa. A sua filha desaparece do mesmo modo que as penas, apenas deixando para trás o manto que cobria o seu corpo. Os homens que ainda vivem, fogem por entre a floresta enquanto Jorge tenta ajudar os guardas feridos com a ajuda de Sofia. O corpo de Virgínia cai sem vida na terra e o seu espelho que me suspirou ao ouvido desaparece.

Não ouço nada. Apenas a floresta à minha volta. Miguel olha para mim, com a face branca e eu reparo na lama nas suas botas. Ainda me lembro quando as minhas preocupações era tentar não sujar a toalha dela ao pequeno almoço enquanto mexia o leite com café.

Sofia corre na minha direcção enquanto grita por Jorge, por ajuda e me agarra pela roupa, passando a sua mão pelo meu cabelo comprido, olhando-me nos olhos com os seus em água. As suas mãos tocam-me no peito e pousam novamente na minha face.

Sinto-as húmidas.

Baixo a cabeça e olho para o meu peito, onde uma mancha de sangue se alastra pela roupa.

Que horas serão?





E assim é. O final do primeiro capitulo. Espero que quem acompanhou a historia até agora não tenha em nenhum momento ficado desiludida. Agradeço todos os comentarios que recebi. Poucos mas bons : ) Também, em todo o caso dificil publicitar um blogue.

Agradeço do fundo do coração à Sofia, por toda a ajuda que me deu e todo empenho que tem demonstrado nesta historia comigo. Adoro-te.


Inicio do próximo capitulo muito em breve :)



Texto por.: Daniel Lopes

Imagem por.: Desconhecido. Mas o texto que a acompanhava era este (At first glance this ghost picture looks like nothing more than a simple double exposure. That is, however, until you find out that the woman standing in front of the man had been dead for years at the point in which the photograph was taken. She was the man's dead wife but yet she showed up in the ghost picture.)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Capitulo I, Pag VII & VIII


Ao chegar ao exterior, o fino e fraco sol já tinha desaparecido para dar lugar a nuvens escuras carregadas de cinzas. No ar ainda se notam pequenos pontos de carvão que carregam o ar e que quase nos obriga a cobrir a cara com um pano, para tentarmos filtrar o ar. Aqui dentro da casa os monges carregam o corpo da criança sem emitirem um som de esforço, enquanto a mãe luta contra as lágrimas que lhe querem a todo custo descer a face. Três dos cinco guardas fazem de batedores na casa e arredores, principalmente no caminho até a floresta para ver se existe algum perigo eminente, enquanto os outros dois ficam connosco. Os outros seis membros do conselho juntam-se a mim. 

Isto não pode ser, se formos atacados pode morrer o conselho todo e depois as pessoas lá em baixo ficam sem ter quem os lidere. Ficam ainda mais perdidas e desorganizadas. Sussurro ao ouvido de Sofia, um dos membros mais importantes do conselho, que apenas três de nós é o suficiente para vir, e ela transmite automaticamente aos outros, concordando com a opinião. É com agrado que os outros, tirando o Jorge, voltam ao refúgio. De todos os membros do conselho, junta-se a mim a Sofia que antes dos ataques era professora de línguas, Miguel, historiador de culturas antigas e Jorge, militar das forças armadas. Os batedores voltam, dão mais uma volta à casa e tapam o caminho de onde viemos. Olho por uma das janelas partidas da casa e observo as casas e prédios destruídos à nossa volta. É claro que eles sabem que nós estamos aqui. Se não nos vêem, sentem o nosso cheiro, mas se calhar nunca se esforçaram por nos encontrar, afinal esta nova Era é agora deles. Mesmo que a esta hora ainda seja, a nosso ver, minimamente seguro vir cá fora sabemos que eles habitam nas sombras, pelo menos até ao dia em que eles se habituem à luz solar e aí sim, tudo será mais difícil para nos conseguirmos manter vivos.

Os batedores juntam-se perto da saída da casa e fazem sinal para não fazermos barulho. Os monges endireitam o corpo e dão o primeiro passo. Jorge pede uma arma a um dos guardas e junta-se a eles. Eu tenho a minha faca agarrada ao meu cinto. Saímos todos, tentando fazer o mínimo de barulho possível, seguindo directamente para a floresta que felizmente fica no topo da rua. Ao subir a rua consigo ver o que resta da antiga vila de Sintra. Algo que antes era tão perfeito, com a sua carga mística, dá agora lugar a algo partido, mas por incrível que pareça ainda possui de alguma forma uma certa beleza, mesmo com esta vista carregada de cinzas, pó e tons cinzentos. Só vim a Sintra antes dos ataques duas vezes, e sempre que vim foi porque elas me pressionavam e quase me arrastavam até aqui. Creio que estava sempre mais preocupado com o meu espaço e o meu trabalho. Lamento agora, não ter aproveitado melhor esses dias. 

Saio dos meus pensamentos porque tropeço no pé da Sofia, onde ela me lança um olhar de reprovação. Pouso a mão no seu ombro como forma de pedir desculpa. Ao subir a rua entramos directamente num caminho estreito que entra dentro da floresta, onde caminhamos uns bons dez minutos entre árvores finas e febris, nenhuma delas contendo uma única folha, até chegarmos a uma casa de pedra que noutra vida foi uma pequena capela. Agora só metade dela se encontra de pé. Encontra-se envolta em raízes secas e podres, mas, no seu centro mantém-se firme um poço, já sem água com dizeres e datas inscritas na pedra, sendo a mais antiga que encontrei de 1456. À volta da capela inúmeras campas de pedra erguem-se do chão, algumas com estátuas de mármores partidas ou apenas com cruzes de madeira. que complementam a paisagem. Por incrível que pareça os seres não se aproximam deste local. Não sabemos porquê, mas, foi algo que alguns dos sobreviventes descobriram há uns tempos atrás, ao fugir de dois seres que no momento em que entraram nesta espécie de cemitério, os seres fugiram emitindo gritos de dor e medo. Já percorremos este espaço inúmeras vezes mas até hoje não encontrámos nada que explique o porquê do seu receio para com este local, mas reparámos que aqui só estavam enterradas mulheres. Só e apenas mulheres. Não havia nem um único homem aqui enterrado. Questionámos as pessoas, mas nenhuma sabia explicar a existência deste local e muitas delas não sabiam sequer da sua existência, como se este lugar tivesse aparecido depois dos ataques. Depois de uma reunião com o conselho, decidimos que o melhor era mesmo não perturbar o local e continuar apenas a enterrar pessoas de sexo feminino aqui, tal como há centenas de anos tem sido feito e os de sexo masculino serão carbonizados e atirados ao ar. 

"Corpo de homem nu, limpo e completo não passas de alimento para as chamas da manha. Sonha que os teus restos, feitos em carvão e papel são atirados ao ar e aí luta a tua melhor batalha. Voa e entra nas narinas dos nossos inimigos. Daqueles que nos tiraram tudo. Entra nelas e mata-os porque eles nunca antes tinham inspirado tamanha perfeição e pureza. Mata-os e alegra-te no teu eterno descanso." - Este foi um dos textos que Miguel escreveu aquando a decisão sobre o que fazermos com os corpos dos mortos, entrou em vigor. Não sei porquê, mas sempre que penso neste assunto lembro-me deste texto.

Os monges pousam o corpo numa mesa que construímos aqui e pegam numa série de pás. Eu e Jorge pegamos em duas das pás e ajudamos a cavar. A mãe de Teresa levanta o véu que tapa o corpo da sua filha que jaz na mesa e vai penteando o seu cabelo. Ninguém consegue dizer nada, porque uma coisa é certa, é nestes momentos, que recordamos tudo o que perdemos e quem também já perdemos. Ao retirar a terra para um monte ao lado pergunto-me a mim próprio, se o Deuses em quem tanto acreditávamos viraram as suas costas a este mundo ou apenas nos estão a castigar depois de tantos anos de pecados, guerras e morte, porque é exactamente com isto que eles nos estão a castigar.
Sofia está junto aos guardas que não tiram o olhos sobre a floresta. Mas, se conheço bem a Sofia ela está a procura de algum tipo de vida. Um pássaro, um coelho, apenas algo que lhe dê esperança para o dia de amanha. Enquanto cavo vejo-a a tirar um caderno da sua sacola e um lápis de carvão onde começa a desenhar o que vê.  

A minha pá bate em algo que ouvimos a rachar e partir. Com tamanho silêncio este rachar percorre a floresta toda. Os guardas voltam as costas para ver o que aconteceu. Todos paramos. Retiro a pá, mas, não vejo nada. Jorge agacha-se e passa os dedos na terra. Uma manhã branca assalta-nos os olhos. Damos um passo atrás e Jorge afasta mais a terra para revelar uma caveira que nos fita com o espaço que parti mesmo na nuca. Estamos em cima de uma campa, uma campa que não estava marcada. Neste momento ouvimos um barulho vindo da floresta e nela aparece Virgínia envolta num manto branco sujo, com o qual tapa o lado esquerdo da sua cara. Os guardas apontam-lhes as armas ao que ela responde com um sorriso e pára, não desviando o seu olhar fixo em mim. Os guardas nem se aperceberam da sua chegada. 
Virgínia aponta o dedo velho e fraco na minha direcção e grita:

"Hoje é o dia Cássio. Hoje é o dia!"


Continua.

Texto por.: Daniel Lopes (com a ajuda da bela Sofia).

Imagem de.:  Desconhecido, St. Mary's Church no fecho do século 19th. 

 

sábado, 30 de agosto de 2008

Capitulo I, Pág V e VI

Durmo e não durmo, pois a minha mente não consegue parar os sonhos. Sonhos que usam pele de pesadelos que atacam a minha dor. Vejo a minha esposa. A minha filha. Escondidas debaixo da mesa de cozinha olhando assustadas para uma nuvem de fumo verde que se formava deixando sair dela um ser de pedra e mosaicos com boca e olhos. Fitando-nos. Olhos em chamas azuis e boca sem fundo gritava e abanava a casa. Corro na sua direcção com o taco. Os gritos a furar-me a mente. O piano a tocar. Ouço o bater do meu coração nos meus próprios ouvidos. O ser abria os braços a gritar e os azulejos saíam das paredes flutuando à sua volta. Sangue a escorrer na minha testa. Sinto-o como se fosse hoje. Orquídeas brancas a balançar. 
O olhar da criatura. 

Acordo!

Com o corpo em suores frios e o respirar forte, mais uma noite onde os seus rostos me perseguem. Já me começo a habituar ao final destes anos todos. Deitado na cama ainda com a roupa de ontem, olho em redor e tudo vai deixando de ser nublado, começando a ganhar forma. As velas ainda ardem. Passo a mão pela cara e sinto as lágrimas na minha face. Olho para o tecto por momentos e sento-me na beira da cama. Pego num livro no topo de outros tantos e folhei-o, mas sem pensar no que estou a ler. Vamos resgatando o máximo que conseguimos lá de fora. Durante uma semana, assaltos à biblioteca foram a nossa prioridade porque o Miguel, um dos membros do concelho, acredita que podemos aprender e procurar nos livros respostas para a nossa sobrevivência e futuro. Tenho que concordar com ele e agradecer por essa ideia, porque foi com os livros que aprendemos a fazer explosivos e a metê-los em vários pontos da casa que serve de fachada ao nosso asilo, em caso deles nos descobrirem e atacarem um dia. Vamos só esperar que esse dia nunca chegue.

Lavo a cara na bacia de água limpa e olho-me ao espelho. Já estou nos meus trinta e quatro anos, feitos hoje. Com a ponta dos dedos passo por cima do olho que perdi durante uma das escavações, tapando-o de seguida com a pala. Molho em água fresca a barba comprida e o cabelo também ele comprido e já grisalho. Se elas tivessem vivas e se me vissem agora não me iriam reconhecer. Nunca na vida. Sorrio só de pensar nisso. 

Visto um casaco de cabedal castanho escuro, já gasto, e calço-me. Afasto a cortina do meu quarto e saio. Os cânticos voltam e ao caminhar pelos corredores e pela área do concelho reparo na quantidade enorme de velas que se espalharam em apenas algumas horas. Vejo um grupo de mulheres e homens em vestes de monges que caminham lentamente em fila indiana. Não pertencem ao grupo senil de Vírgina. Não pertencem a ninguém. Apenas são pessoas que se oferecem para ajudar em tempos de luto. Olho para eles e baixo a cabeça em forma de cumprimento, seguindo-os sem perturbar o seu caminho. Entramos por uma das aberturas que dá para o lago e vejo a quantidade de pessoas que estão a entoar os cânticos pela alma de Teresa. 
Só os trabalhadores vitais e alguns guardas é que não estão presentes. 

Deixo os monges irem á frente em direcção ao meio do lago. Envolto em panos de linho branco, o corpo nú de Teresa encontra-se pousado em cima de uma espécie de jangada feita de madeira. Tão calma e bela com o seu cabelo arranjado e tratado. Ao seu lado está a mãe que segura na jangada. No corpo da criança bate um raio de luz que entra pela fenda que existe no topo do tecto da caverna. Aquele é o ponto mais fraco do nosso asilo, mas essencial para a nossa sobrevivência incluindo a renovação do oxigénio, saber em que parte do dia estamos ou apenas podermos olhar para algo feita de luz natural, sem ser estas paredes frias e mal iluminadas. Mesmo tapada por raízes de árvores, que descem e caem pela fenda, é possível com a junção de algum azar os seres encontrarem-na. Apesar da presença dos guardas durante a noite, não nos é dada a segurança que eu desejaria. Junto-me ao resto do concelho que se encontra no ponto mais alto da área, cumprimentando-os silenciosamente. Não me junto aos cânticos mas eles estão aqui.
Os monges entram na água, como se ignorassem a água nas suas vestes e aproximando-se do corpo, rodeando-o. Pegam em jarros de barro e com a água do lago vão molhando o corpo lentamente, banhando-o, enquanto a mãe de Teresa pega em cristais trabalhados retirados das paredes desta mesma caverna e os vai pousando no corpo da sua filha. 
Um dos monges abre os braços como pedido de silêncio e sem retirar o capuz da cabeça fala.


Ó Deus. Ó Deuses. Ó tu que nos abandonas-te e castigaste ouve-me. - diz ele com a voz baixa e rouca mas suficiente para todos ouvirem – Ouve-me pois concedei-nos alguma alegria. Vos suplicamos, não nos leveis mais filhos pois perder mais um é como perder toda a vida que criaste. Perdoai os nossos pecados e Acorda do teu trono para nos acariciar a alma. - Finaliza ele voltando a baixar a cabeça e dando tempo para os cânticos retomarem.

Os monges largam os jarros na água deixando-os ir ao fundo e com a ajuda da mãe pegam no corpo da rapariga. Começam a caminhar para fora do lago e dirigem-se para as escadas que só são usadas em dias como este. Os seus degraus foram trabalhados durante anos por um grupo de pessoas que tinham sido historiadores ou professores de história onde neles esculpiram e pintaram a história da Humanidade até ao dia dos ataques. Estas escadas juntas à parede da cave vão dar à área de cima, com ligação ao corredor mais perto da saída da gruta. Nesta fase, eu e os membros do concelho juntámo-nos aos monges. A partir daqui só estão autorizados a ir ao exterior o concelho, os monges, os familiares mais próximos do defunto e cinco guardas com armas de fogo.
Ao juntar-me ao grupo questiono-me onde estará o pai da rapariga e mais importante ainda, porque é que ainda não vi Virgínia.

Continua...

Texto por.: Daniel Lopes

Página V e VI do cáp I. 


Final da pagina IV


Deixo para trás este infeliz acontecimento que só me faz cada vez mais desistir de tudo. Só não desisto de tudo e enfio uma bala na cabeça porque a caminhar até ao meu quarto passo por dezenas de pessoas e familias inteiras que dependem de mim e do conselho que criámos. Olho nos olhos de uma criança e vejo neles a sua vontade de sair desta gruta para caminhar e brincar ao ar livre novamente. Mas em vez disso tudo se vai apenas tornando numa memória envolta em recordações de morte e lágrimas. O casal que o rodeia serão mesmo os seus pais verdadeiros ou apenas um casal que o adoptou?

É em momentos de desespero, de dor, que o Homem mostra o seu melhor ou pior lado. Raspo a minha mão na parede da caverna e por momentos esqueço o que acabou de acontecer. Esqueço a família que perdi e agradeço a alguém pela sorte que tivemos em encontrar, entre os que sobreviveram, alguém com experiência  em construção e alicerces. Foi o que nos permitiu manter esta gruta de pé. No terceiro ano de construções onde muitos de nós morriam de sede e doença enquanto não conseguiamos parar de escavar por algum motivo fora do nosso entender, encontrámos um rio subterrâneo que criou ali um lago de água pura e cristalina. No passado, antes dos ataques, já tinha visitado as grutas e lagos de Alvados no antigo conselho de Porto de Mós, que são por si só magnificos, mas não se consegue comparar à imensidão e beleza destas.  

Foi uma das imagens mais bonitas que já vi em toda a minha vida. Quando entrámos, a luz das lâmparinas e das tochas brilhava e reflectia na água límpida. Os homens caíam ao chão com as mãos nos rostos a chorar. O barulho da corrente dançava nos nossos ouvidos. Todas as cores verdes, castanhas e amarelas enchiam-nos o olhar e a alma naquele momento, único e eterno, gravado nas nossas mentes.

Esse dia, foi sem dúvida um marco, e nesse mesmo instante nasceu o concelho e a decisão de construir um asilo com a sua ordem e paz á volta deste local belo e perfeito.  Comigo somos oito no total, mas como já pensei várias vezes, vejo Vírginia como uma praga e uma ameaça ao que resta da nossa humanidade. 

Ao chegar ao meu quarto atiro-me para cima do sofá. Descalço as botas e suspiro. Pego num copo meio sujo e numa garrafa de malte que guardo para aqueles dias menos bons e encho-o até meio. Ao beber vou fechando os olhos e tudo passa diante deles como se fossem flashes. A terra fértil que trouxemos lá de fora para tentarmos cultivar vegetais, os animais de gado que conseguimos resgatar nos montes e o sacrifício que fizemos em não os matar e os comer naquele mesmo momento. Como esperámos, como tratámos deles para se reproduzirem até se tornarem numa boa fonte de alimento. 

Acabo de beber e pouso o copo no chão. Levanto-me para cair automáticamente na cama. Fecho os olhos e ao longe muito suavemente ouço cânticos em forma de oração pela alma da Teresa. Sinto os passos suaves daqueles que ainda caminham e que acendem velas por ela. Tudo se vai desvanecendo até adormecer.

Amanhã temos o funeral da criança e com ele vem a Vírginia. 

Continua...

Texto por.: Daniel Lopes

Final da Página IV.

Imagem por.: George Wasses de as Minas de Alvados